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Aprenda sobre café e empreendedorismo gratuitamente
CARREIRA

SOBRE FAZER MESTRADO EM ECONOMIA E CIÊNCIA DO CAFÉ NA ITÁLIA.

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Foram dias de frio, de vento, de neve, de chuva. Depois vieram as flores, seguidas de um calor que aqueceu manhãs e fez das noites, estrelados céus de verão.
Em todos eles, a retórica foi idêntica:

– Olá, meu nome é Patrícia Azevedo, sou brasileira, coffee-lover, advogada, e estou aqui para entender o universo do café, e empreender nessa área!

Pronto! Era o bastante para se ecoar um silêncio ensurdecedor naquela sala de aula.

Os 27 colegas – todos do mundo do café e oriundos dos mais diversos países, agiam com naturalidade diante do “ser” raro que ali se apresentava, a cada início de módulo.

É que já estávamos todos acostumados com a assustada expressão dos professores ao me ouvir falar, de certo por não ser mesmo comum uma advogada sair do seu país para voltar aos bancos de uma faculdade, e fazer um mestrado em ciência e economia do café, na Itália.

Era mesmo estranho, e, até os dias atuais, muitos questionam e tentam encontrar sentido para uma mudança de vida tão extrema. Na verdade, mesmo movendo destinos, a força das paixões é, costumeiramente, desconhecida por muitos, e o comodismo ainda é a regra geral do modus de vida de grande parte da humanidade.

Todavia, para as almas inquietas, avessas à fatores limitantes, e donas de sonhos absurdamente incomuns, os desafios são estimulantes naturais, condutores de decisões, molas propulsoras de forças capazes de diluir medos comuns.

Inebriada, pois, num blend exótico de cafeína, curiosidade, necessidade do novo, destemor e contraditória angústia, desembarquei num mundo diferente, trazendo comigo apenas o que me era importante, e um coração palpitante.

Amanhecia o dia em Trieste, e a cidade do café dava boas vindas da maneira que ela melhor sabe fazer. O céu estava lindamente azul, e o vento frio abraçava meu peito avisando que já era hora de tomarmos um capo in B para sentir, na boca, que o sonho havia se tornado real. Ali começava tudo, e posso afirmar que foi uma das experiências mais incríveis da minha vida, que renderia um diário de recordações rico das mais diversas emoções.

Terminados os programados dias de adaptação, era chegado o momento da solenidade de início das aulas. Eu estava ansiosa. Como lidar com todos olhando e esperando que eu falasse sobre minha experiência com café, sendo eu uma advogada que apenas tomava cafés ininterruptamente, em meus dias de intensa e alucinante jornada de trabalho? Até hoje lembro da infinidade de bobagens que falei, tentando ser apropriada para aquela noite de festa.

A ficha caiu, e senti um medo imenso. Não estava preparada! Meu inglês era medíocre, tinha zero de experiência com o universo do café, era a pessoa mais velha da turma (isso porque a media de idade era 25/30 anos, ok?), e sobretudo, estava sozinha acumulando a missão de estudante e mãe de gêmeos. Não dormi naquela noite!

Os dias na cidade do café começavam bem cedo! Ainda escuro, deixava a intrépida e energizada duplinha na escola, e, de ônibus, seguia para a Illy. O cheiro do café torrando anunciava que estava perto.

Sentava na primeira fila, e, dividindo a mesa com uma linda queniana, mais e mais entendia que não entendia nada.

Os cafés com defeitos eram especiais na minha boca, habituada, desde sempre, e corriqueiramente, a degustar xícaras de cafés tradicionais. As aulas de botânica eram aterrorizantes para mim, e as de genética eram completamente incompreensíveis.

Italianos, mesmo fluentes em inglês, falavam mandarim para meus ouvidos, e entrei em pânico quando soube que faria exames dessas disciplinas.

Descobri que fiquei tão empolgada com a possiblidade de fazer o mestrado, que esqueci de ler o projeto do curso. Estava, de verdade, encurralada. Chorei horrores e decidi desistir. Como fazer exame, escrito e oral, de disciplinas que nem lembrava quando havia estudado, e em inglês?

Na manhã de uma segunda cinzenta, o staff do mestrado assistiu meu mundo se desmanchar em lágrimas! E não era somente um choro de medo, mas principalmente de vergonha pela fraqueza que não ornava em nada com meu espírito resiliente. E eles me lançaram um desafio: Esperar um pouco mais, e lutar! Se eu não conseguisse a nota mínima nesses primeiros exames, eles concordariam comigo que eu deveria desistir.

Aquilo soou estranho! Eu poderia me sentir incapaz, mas não me agradou a ideia de alguém pensar isso de mim. E decidi que eu iria conduzir meu destino ali, porque foi ali que escolhi estar, e foi aquele sonho que sonhei viver, e fiz meus filhos nele acreditar. Enxuguei as lágrimas, e tomei, outra vez, o controle dos meus pensamentos.

Foram dias, e incansáveis noites debruçada sobre livros, apostilas, infindáveis materiais de aula. Alelos, cromossomos, fotossíntese, flor, fruto, clima, solo, movimentos das formigas na disseminação de sementes… quanta viagem! Os professores e colegas de turma eram pacientes, e ajudavam no que podiam, e eu estudava com afinco, mas sem entender o propósito de tudo aquilo. Os exames chegaram, e a cada bom resultado, todos se surpreendiam e se alegravam!

Paulatinamente, entendi que a ciência do café, e todo aquele novo mundo que ela me mostrou, tinha sim um sentido de ser estudado. Dentre tantas coisas, como é rico construir hoje meu discurso sobre cafés especiais, e seu mercado de luxo, tendo como alicerce informações técnicas sobre a cadeia genética da espécie arábica!

Assim se seguiram aqueles meses. Entre cafés, livros, filhos, e gigantes desafios, a imersão me proporcionava uma experiência indescritível. A solidão batia. A saudade do meu país, dos amigos, da família, tudo sangrava o peito, mas o percurso era o propósito, e aqueles dias pediam intensidade e dedicação.

Foi um tempo de entrega, que, chegando ao fim, deixou o coração pequenininho, e senti que era o começo de um novo tempo!

Mais que um importante network, fiz amigos para sempre, por todo o mundo. E meus filhos também. Hoje, eles têm olhos desbravadores e destemidos. Enxergam o mundo ao alcance dos seus braços, e isso tem valor inestimável. O café me presenteou com tudo isso!

De volta ao Brasil, olhei no espelho e não vi a mesma mulher inebriada, curiosa e destemida, contraditoriamente angustiada, que embarcou para a Itália carregando um coração palpitante e um sonho egoísta de necessidade do novo.

Na minha frente, estava alguém diferente, que saiu em busca de aprender a fazer um excelente café, e, no percurso, descobriu que por traz de uma xícara de café existe um mundo imenso de vidas, de histórias, de técnicas, de oportunidades, de passado, e de futuro.

Hoje contemplo o café, e nele vejo milhares de sonhos, somados aos meus, depositados nele, e isso norteia meus olhos para horizontes antes desconhecidos. Entendi que a minha missão nunca foi fazer apenas um excelente café, mas servir de instrumento na educação, disseminação e valorização do universo existente através da excelente xícara dessa paixão que se tornou profissão.

Carrego um pouco de Trieste em mim, para sempre! Ali aprendi muito sobre café, e o café, ressignificando tudo, tem me ensinado, dia após dia, também muito sobre mim.