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FEMINISMO NO CAFÉ: LUTA PELA VISIBILIDADE

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As mulheres estão presentes em toda a cadeia produtiva do café, seja no plantio, colheita até chegar à indústria e demais atividades que fazem parte do universo cafeeiro. Porém, mesmo com toda essa participação nos processos que envolvem o café, ainda busca-se visibilidade para o público feminino nesse setor.

Para entender mais sobre o assunto, conversamos com a barista independente Amanda Albuquerque e a empreendedora Angela Caruso do Batom na Xícara para falar sobre feminismo no café e a importância do papel da mulher na área.

Movimento feminista

O termo feminismo é bastante utilizado nos dias atuais, mas nem sempre com o seu significado real. Não está relacionado a superioridade feminina, ou o oposto do machismo, mas a luta por equidade de gêneros.

A palavra equidade é usada no feminismo no sentido de que todos devem ter as mesmas oportunidades, independentemente do gênero. O termo valoriza a diversidade dos indivíduos, em que cada pessoa apresenta uma particularidade que deve ser respeitada.

Antes de falarmos sobre o feminismo no café, é preciso conhecer um pouco sobre a história do movimento, conforme será abordado abaixo.

Feminismo: contexto histórico

A luta das mulheres pelo fim da desigualdade de gênero é antiga,  desde o século XV e XVIII elas já lutavam pela opressão masculina. Porém ainda não havia um termo que estivesse ligado à essas pautas.

O feminismo é um movimento social e político que ganhou força a partir do feminismo contemporâneo. O conceito surgiu na Revolução Francesa (1789) pela influência dos ideais do Iluminismo. Mulheres como Olympe de Gouges reforçaram a luta pelo direito e emancipação da mulher.

Nessa época, a mulher era vista na sociedade como um gênero inferior, por isso não tinha o direito de votar, estudar ou escrever. Olympe de Gouges tornou-se um símbolo da luta das mulheres, principalmente no âmbito político, foi autora da Declaração dos Direitos da Mulher, documento que se opunha a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.

Por defender ideais contra a autoridade masculina, Olympe de Gouges foi morta em Paris em 1793. A partir disso, tornou-se um símbolo do feminismo, o que fez surgir mais movimentos pela emancipação da mulher.

Feminismo no café

As mulheres estão presentes em todas as etapas do universo do café, do grão à xícara. Apesar disso, o protagonismo feminino ainda é pequeno no setor, como apresenta a barista Amanda Albuquerque.

Acredito que o nosso papel é o mesmo do que de qualquer outro, mas isso ainda não acontece, nos falta visibilidade e espaço. Por exemplo, 45% da mão de obra agrícola no Brasil é feminina. Dentro do café especial, não temos nem pesquisas suficientes pra saber uma porcentagem correta. Mas temos a certeza da relevância das mulheres dentro das comunidades familiares, devido ao maior cuidado na produção.

Para conhecer mais sobre o papel desempenhado pelas mulheres no café, assista ao vídeo “Mulheres do café no Brasil” da Aliança Internacional das Mulheres do Café do Brasil – IWCA.

Principais desafios

A dificuldade das mulheres no mercado cafeeiro acontece logo na aquisição das máquinas amplamente utilizadas para a colheita do café. No entanto, buscaram alternativas para continuar no segmento: a colheita manual.

Por meio disso, Amanda cita que o público feminino contribui para a expansão dos cafés especiais, pois valoriza-se a colheita seletiva, separando os cafés verdes dos maduros, o que consequentemente traz um diferencial do trabalho automatizado x trabalho manual.

“Como eram desvalorizadas profissionalmente, não tinham acesso aos maquinários. Então iniciaram um trabalho manual, melhorando a qualidade do café, sendo assim, as mulheres são as grandes responsáveis por cultivar o café especial dentro do país. Disso ninguém fala”, desabafa Amanda Albuquerque.

Feminismo no café
Mulher durante a fase de colheita do café. Crédito: Divulgação/Amanda.

O maior desafio citado por Angela Caruso, sócia do Batom na Xícara, está relacionado a mulheres em cargos de liderança no café, principalmente em cooperativas.

Nas cooperativas elas sofrem mais preconceitos se estão no comando e precisam negociar o café de um produtor masculino. Várias mulheres que tinham (ou tem) outra formação universitária, que não a agronomia, usam todas suas habilidades de organização, planejamento, liderança, gestão de pessoas, pesquisa… etc, têm se saído muito bem na produção de café especial.

Jornada ao mundo cafeeiro

Chegar ao mercado de cafés ocorreu de forma distinta para as duas entrevistadas. Amanda, que havia iniciado o curso de gastronomia, teve que interromper por um tempo o seu sonho porque ficou grávida. Entretanto, de volta ao trabalho, identificou a paixão pelo café.

“De volta, um tempo depois, comecei a trabalhar em uma cafeteria como atendente, com intuito de me tornar cozinheira. Porém, conheci o café especial e me apaixonei, conheci um universo novo onde com muito estudo, eu poderia viajar o mundo fazendo café, e decidi me tornar barista. A união que o café proporciona faz eu me apaixonar cada vez mais e entender que escolhi a profissão certa”, fala Amanda com muito orgulho.

Angela Caruso sempre trabalhou com educação, é formada em Pedagogia com mestrado em Psicologia da Educação e MBA em História da Arte. Mas ao receber um convite da Confraria de Café do Sul de Minas, passou a enxergar o café de outra forma, inclusive a desbravar os cafés especiais.

Em 2015 recebi um convite para participar de uma reunião da Confraria do Café do Sul de Minas – um grupo de mulheres, amantes de café, produtoras ou não, que se reúnem mensalmente para estudar e degustar cafés especiais. Até então, eu nem era muito fã de café. Na verdade, eu não sabia tomar café e desconhecia o que fosse café especial. Ingressei na Confraria e me apaixonei pelo tema: um universo fascinante! Estou trabalhando na área há apenas um ano”, conta Angela Caruso.

LEIA TAMBÉM: GÊNERO E DIVERSIDADE NO CAFÉ ESPECIAL

Preconceitos

As mulheres buscam o reconhecimento no mercado de trabalho a partir de um maior protagonismo e visibilidade, pois mesmo que participem de todo o processo, ainda lidam com preconceitos. Isso não ocorre somente no setor cafeeiro, mas nas demais áreas.

“Além de muito assédio trabalhando como atendente de cafeteria e como barista atrás do balcão, infelizmente já houve muita desvalorização do meu trabalho e desempenho, por eu ser mulher, me dedicar ao meu trabalho e ocupar o meu espaço dentro da profissão”, desabafa Amanda Albuquerque.

Empresa Batom na Xícara promove encontros com mulheres para educá-las sobre cafés. Créditos: Divulgação.

Portanto, as mulheres além de terem que lutar muito para alcançar espaços predominantemente masculinos, ainda têm que provar a sua capacidade a todo momento. Algumas inclusive quando assumem cargos mais altos, esbarram no preconceito por parte de homens em cargos menores, como cita a sócia do Batom na Xícara.

“Trabalhei sempre com muitas mulheres em escolas e na universidade, mas tive que enfrentar alguns homens que não me aceitavam muito bem como sua chefe ou sua professora”, diz.

Papel da mulher no ciclo do café: perspectivas

De acordo com Angela Caruso, algumas empresas buscam comprar de produtores que têm mulheres na etapa de colheita e pós-colheita do café, pois acreditam que o público é mais detalhista, e com isso, conseguem identificar os melhores grãos, além de enxergar com afinco os defeitos. No setor de cafés especiais isso é uma habilidade muito valorizada.

Ela analisa também a presença da mulher em fases como produção, prova e no trabalho como barista. “O setor de prova ainda é muito masculino. Até 2018 apenas 5 mulheres haviam se formado provadoras de café no Brasil. Também nas cafeterias, o barista ainda é do homem, as mulheres são discriminadas nesta função.  Mas, aquelas que se impõem, se destacam e ganham até prêmios nos concursos de barismo. Aqui em casa, eu sou a mulher do café”, brinca Angela.

Segundo Amanda, as mulheres estão conquistando cada vez mais seu espaço no mercado de trabalho. “Nós, mulheres, estamos caminhando para um cenário muito melhor, tanto na produção, torrefação, no preparo da bebida como barista, e até mesmo como empreendedoras. Ou seja, estamos presentes em toda a cadeia do café, cada dia mais. Mas precisamos nos dedicar a ter mais visibilidade e voz para que sejamos respeitadas e valorizadas”, salienta.

Feminismo no café: mulheres como baristas
Barista Amanda Albuquerque. Crédito: Divulgação.

A barista aproveita para destacar o trabalho desenvolvido pela Aliança Internacional das Mulheres do Café do Brasil, rede formada por mulheres em toda a cadeia produtiva com o objetivo de dar visibilidade para o público.

Exatamente toda essa visibilidade do IWCA que precisamos pra ocupar o espaço que também é nosso, e além disso, dar oportunidades que antes as mulheres não teriam. Acredito que quando nos unimos e entendemos onde queremos chegar, podemos realmente alcançar todos os nossos objetivos juntas.

Conheça alguns projetos

Bucecoffee

As entrevistadas fazem parte de duas iniciativas comandadas por mulheres, o que permite dar voz e espaço para o público no setor do café.

Amanda Albuquerque comenta sobre a criação do Bucecoffee, grupo formado por mulheres baristas de todo o Brasil com o objetivo de trazer mais valorização para as profissionais. Foi a partir de uma competição de latte art que houve a ideia de criar o projeto. Amanda fala que essas competições eram formadas por mais de 80% de baristas homens.

Certa vez fui competir e vi um pequeno grupo de mulheres reunidas assistindo o campeonato. Elas tinham ido pra me apoiar, sem nem me conhecer. Ali mesmo já nos tornamos amigas e elas tiveram a ideia de fazer um grupo, onde poderíamos nos apoiar a participar cada vez mais.

A partir do Bucecoffee, muitas mulheres passaram a se destacar e ganhar campeonatos no universo do café “esses campeonatos foram vencidos por muitas mulheres. Não imaginaríamos que hoje teríamos um grupo com mais de 100 mulheres do café do Brasil todo, onde temos espaço de fala, troca de informações, apoio uma das outras e uma união importantíssima”, aborda a barista.

Batom na Xícara

A ideia de criar o Batom na Xícara foi desenvolvida por Angela Caruso e Mônica Frison, sócias do empreendimento de clube de assinaturas de cafés. A escolha pelo modelo de negócio se deu pela flexibilidade e pelo baixo custo, comparado às cafeterias.

“O Batom na Xícara nasceu a partir de uma proposta inicial de focar no público feminino. Apesar das estatísticas mostrarem que as mulheres têm frequentado muito mais as cafeterias que os homens, observamos que elas o fazem sem muita preocupação com o café em si. O café ainda é uma bebida masculina! Assim, a ideia era potencializá-las para conhecer, degustar e poder exigir um café sempre de qualidade”, explica Angela.

Amigas, Mônica (esquerda) e Angela (direita) do Batom na Xícara. Crédito: Divulgação.

É a partir da educação que o Batom na Xícara pretende levar o conhecimento sobre os cafés especiais para o seu público.  “Os encontros são sempre fundamentais, então, mensalmente organizamos uma palestra, um workshop ou visita técnica para reunir cada vez mais mulheres e encantá-las com o tema”, aponta.

Conclusão sobre feminismo no café

A discussão sobre feminismo no café torna-se necessária quando as mulheres não têm visibilidade, mesmo que as mulheres estejam presentes em diferentes etapas da cadeia do café, seja nas cooperativas,  nas lavouras, na torrefação, na classificação ou nas cafeterias.

As mulheres passam a todo momento por julgamentos sobre o seu conhecimento em determinada atividade, muitas vezes tendo que provar as suas capacidades devido a cultura do patriarcado. Como apontaram as entrevistadas, são diferentes desafios, mas que podem ser superados quando elas tiverem voz e mais protagonismo.