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ANALISE SENSORIAL

CAFÉ SENSÍVEL: UM ESTADO DE PRESENÇA

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Um movimento chamado Café Sensível está evoluindo e marcando presença no mundo do café, e diferentemente do que se possa pensar, não se restringe somente ao “café especial” ou “terceira onda” que estamos acostumados a ouvir, mas a todo o setor.

Café Sensível é um conceito cultivado e impulsionado por Kim Ossenblok, Q-Grader autor do livro ¡Al Grano! e formador de mais de 3.053 profissionais no mercado de cafés desde 2012, cujo objetivo tem sido superar contradições e limitações encontradas no setor cafeeiro com mais humanidade e sensibilidade. 

Kim Ossenblok é um grande incentivador do Café Sensível.
Kim Ossenblok. Fonte: Medium EthicHub.

Como Ossenblok ensina, atualmente percebemos que a maior parte dos cafés são produzidos e torrados para extrair o máximo de rendimento, muitas vezes sem levar em consideração aspectos de sustentabilidade ou qualidade do sabor. 

É comum, ao abrir um negócio de café, o empreendedor buscar o lucro, comprando o produto por preço baixo e vendendo por preço alto, sem qualquer noção dos reais custos de produção e seus impactos socioambientais em países emergentes.

Em outras palavras, a proposta do movimento Café Sensível busca trazer à discussão sobre esses impactos, assim como as condições de trabalho dos produtores, por uma maior consciência dos processos da cadeia produtiva, independentemente do café ser categorizado como especial ou não.

Atualmente já existem inúmeros projetos seguindo esse viés do Café Sensível. Por isso, a ideia é justamente dar visibilidade e ajudar esses empreendedores a enxergarem como podem sensibilizar suas ações no setor, e conseguirem, também, maior lucratividade em seus negócios. Kim Ossenblok

CAFÉ ESPECIAL SENSÍVEL

O termo “café especial” é comumente utilizado para descrever um café cautelosamente colhido e selecionado, de alta qualidade e sem os defeitos físicos encontrados no café comercial. Ou seja, é um café puro, produzido e torrado com o objetivo de alcançar um sabor diferenciado, muitas vezes sem dar muita atenção aos fatores sociais e ambientais. 

Além disso, essa categoria pressupõe que o café tenha acima de 80 pontos (na escala de 100 da  SCA – Associação Americana de Cafés Especiais) pela avaliação de um profissional licenciado, chamado Q-Grader.

E pela qualidade demandar mais atenção e cuidado, desde o plantio até a xícara, o consumidor reconheceria e pagaria mais pelo valor agregado, e consequentemente, os produtores de cafés especiais receberiam uma maior compensação pelo árduo trabalho. Mas esse nem sempre é o caso.

Café Sensível estuda sobre as famílias de produtores
Família de produtores. Fonte: Starbucks Stories.

Conforme Ossenblok explica, a produção e comercialização de cafés dessa natureza trazem implicações gigantescas a muitas fazendas produtoras. É nesse momento que o objetivo de ajudar os trabalhadores se perde no caminho, o que atinge diretamente suas remunerações e qualidade de vida.

Por isso, acolher a filosofia do Café Sensível é se atentar a esses detalhes, garantindo que os cafés sejam de ótima qualidade, mas sejam produzidos com a dignidade que cabe às mãos de quem os produzem com tanta dedicação, e sendo transparente com o consumidor final sobre todos os processos logísticos da fazenda à xícara.

Como já visto, surgiram centenas de projetos, inclusive no setor de café especial, para amenizar os danos provocados em grandes produções, no meio ambiente, na remuneração dos produtores, na real intenção de ser justo com todas as partes da cadeia produtiva. Entretanto, isso soa muito bonito na teoria, mas é difícil de sustentar na prática. 

A visão do Café Sensível tem o intuito de levar nossa atenção a todos esses pontos que apresentam falhas, no sentido de nos sensibilizarmos e repensarmos nossas escolhas, formando uma corrente ao levarmos esse conceito adiante.

Pra mim, ser sensível é ter mais presença e melhor percepção do que está acontecendo dentro de nós e ao nosso redor. É ter conexão direta com seus sentimentos, pois quando estamos bem com nós mesmos, tudo flui e se percebe melhor. Isso me ajudou a desenvolver a sensibilidade sensorial que me levou ao 3º lugar no Campeonato Mundial de Prova de Café de 2012.  Kim Ossenblok


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Assim como no café comercial, no especial também existem pessoas que mediam as relações entre produtores, torrefações, exportações e cafeterias, especulando preços de compra e venda, e ocasionando um escape financeiro que poderia ser voltado às pessoas diretamente ligadas à cadeia.

Mas, como os produtores sozinhos, muitas vezes, não dispõem dos recursos necessários para realizar qualquer transação, veem-se obrigados a depender de terceiros.

Enquanto isso, os preços dos cafés em grande escala são considerados “justos” ao tempo que seus mercados navegam por instabilidades e especulações, afetando o que muitas vezes representa a única fonte de renda dos produtores.

Café Sensível se preocupa com toda a cadeia de produção do café
Fonte: The New Savvy.

Atualmente, não é necessário pagar mais para conseguir ser mais justo ou sensível, pois existem muitas pessoas intermediárias que não contribuem com o valor agregado do produto. Kim Ossenblok

Como Ossenblok persevera, a sensibilidade, ou melhor, o nível de presença e consciência vai muito além do simples café especial, do simples Fairtrade, das etiquetas e certificações que muitas vezes são equivocadas, burocráticas e caríssimas para os pequenos produtores, que acabam sujeitos ao sistema.

Quando surgiram, essas certificações foram eficazes, cumprindo ao objetivo pelas quais foram criadas, que muitas vezes era o reconhecimento do produto por critérios de sustentabilidade, trazendo a marca dos programas nas embalagens e propostas diferenciadas ao mercado.

Café Sensível.
Certificações do Setor de Café. Fonte: Roast Magazine.

Com o tempo, o propósito pode ter se diluído em meio aos processos e regulamentos das certificações, e foram perdendo o efeito que costumavam ter, tornando-se menos influentes, pois além de caras, não prestavam muita atenção à real qualidade dos grãos, às dificuldades sociais e despesas dos produtores.


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SENSIBILIZAÇÃO

Ao invés de pensarmos em limitar os acessos com essas ferramentas de difícil controle, ou mesmo implementando entidades de controle que engessam a cadeia, deveríamos nos importar mais com as pessoas e a capacidade de suas conexões gerarem negócios mais saudáveis.

Muitas vezes, o café especial reflete suas origens na embalagem, valorizando o produto, mas não chega perto de dizer como as pessoas que a produziram estão sendo recompensadas em infraestrutura, saúde, educação. 

Por isso, Ossenblok aconselha para uma mudança de paradigma. Ele cita que para compreendermos as necessidades do outro, precisamos desenvolver a nossa sensibilidade, ou seja, nossa capacidade sensorial, mas também nosso bem-estar e estado de presença, considerando nossos círculos de convívio.

1º Congresso Online de Café Sensível

E para fazer isso acontecer, Kim Ossenblok deu partida a um grande projeto, que envolve a junção de empreendedores em uma ação colaborativa, convidando todos do setor cafeeiro da América Latina e Europa para converter, até 2024, 1 milhão de sacos de café em Café Sensível, através de um programa de aceleração de negócio chamado Círculo Sensível.

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